Quando comecei a pesquisar o conceito e as aplicações das LLMs, ali pelo meio de 2023, uma pergunta começou a aparecer de tempos em tempos em minha cabeça: o que será a produção de conteúdo quando o tempo de criação de qualquer tipo de peça tender a zero? Qual será, realmente, o “negócio do conteúdo”?
Anos antes eu já havia consolidado minha jornada de aprendizado sobre times de produção de conteúdo com o livro “Alvo Volume” – que já conta com quase 10 mil downloads aqui no site – , que narra em clima deliciosamente steampunk minha jornada gerenciando times de produção de conteúdo para e-commerce.
Explico: entre 2009 e 2015, grandes redes de varejo on-line se comunicavam com suas audiências a partir de simpáticos blogs e portais explicando toda sorte de produtos e tendências. Foi um Brasil que começou a consumir e ser feliz e precisava de quem os ajudasse. Nós fazíamos esta ponte. Eu e meus times. Foram mais de 200 mil peças de conteúdo, aprendi um monte.
De lá para cá, muito mudou. E só para ficar no tema deste artigo: a volumetria e os times necessários para produzir 200 artigos em uma semana tendem a zero. Hoje, sem medo de errar, diria que dois ou três BONS produtores de conteúdo, agentes e automações feitas sob medida dão conta disso com esmero.
Aliás, caso queira saber como isso se dá, visita a página da Sinapse aqui no site. É uma solução que montei há um tempo e abastece a produção de alguns projetos.
Dito isso, caiu na minha caixa postal um material que dá conta da expansão deste conceito. Isso porque é mais ou menos assim que a economia criativa está mudando agora. Quem trabalha com conteúdo, consultoria, mentoria ou qualquer forma de serviço intelectual, assim como eu, sente que algo deslocou, mas em alguns casos nem sempre consegue nomear o quê.
Neste material, a hipótese é a seguinte: teríamos saímos da economia da informação e entramos na economia da identidade.
A tese não é minha. Quem cunhou o termo foi Iva G., estrategista e criadora da newsletter Stellar Content, num ensaio publicado no final de 2025 que viralizou entre profissionais de branding e marketing pessoal. Mas a ideia tem lastro em algo que qualquer pessoa que vende conhecimento já percebeu na pele: informação, sozinha, perdeu valor de mercado.
O que aconteceu com a expertise?
O argumento central é simples e, por isso, incômodo. A inteligência artificial democratizou o acesso ao conhecimento técnico de um jeito que nenhum curso online, e-book ou webinar jamais conseguiu. Hoje, qualquer pessoa com acesso a um modelo de linguagem que já tenha atingido algum nível de racionalização, acesso a pesquisa aprofundada e comportamento agêntico, pode montar um plano de negócios, estruturar uma dieta personalizada ou criar um funil de vendas com copy inclusa. Em trinta segundos. (Quase) De graça.
Isso não significa que a expertise morreu. Significa que ela deixou de ser diferencial e passou a ser pré-requisito. É o ingresso, não o show. E quando o ingresso está disponível para todos, o valor migra para aquilo que não pode ser replicado por um prompt.
E o que não pode ser replicado por um prompt? A confiança.
Existe um segundo fator, menos tecnológico e mais humano, que acelera essa mudança. Iva G. chama de trust recession, a recessão de confiança. Depois de anos comprando cursos, investindo em mentorias e consumindo promessas de transformação que entregaram apenas informação e overwhelm, o público está cauteloso.
A experiência coletiva dos últimos anos ensinou algo que nenhum expert precisou ensinar: o problema raramente é falta de informação. O problema é identidade. É o que nos impede de agir sobre aquilo que já sabemos. É o medo de julgamento que trava a visibilidade. É o padrão de autossabotagem que desmorona a dieta na segunda semana. É a crença de escassez que faz o freelancer cobrar menos do que vale.
As pessoas já sabem disso. E, por saberem, começaram a procurar algo diferente.
O que as pessoas estão comprando agora?
O que o público disposto a investir em desenvolvimento pessoal e profissional procura em 2026 não é mais um método, um framework ou uma planilha. Procura quem consiga operar na camada onde a mudança realmente acontece: a camada da identidade.
É um deslocamento sutil, mas com consequências enormes para quem vive de conteúdo e serviços baseados em conhecimento:
- O coach de relacionamentos que antes vendia “dicas de namoro” precisa se reposicionar como alguém que guia uma evolução identitária, do padrão de abandono de si para a construção de autorrespeito que naturalmente atrai parcerias saudáveis.
- O profissional de saúde que antes vendia planos alimentares precisa mostrar que trabalha na relação da pessoa com o próprio corpo, com as emoções e com a autoimagem, num nível onde a saúde sustentável se torna expressão natural, e não imposição disciplinar.
- O estrategista de conteúdo que antes vendia “como postar melhor” precisa demonstrar que ajuda marcas e profissionais a se tornarem outra coisa, não apenas a fazerem coisas diferentes.
A frase que resume a virada: pare de perguntar “o que posso ensinar?” e comece a perguntar “em quem posso ajudar as pessoas a se transformarem?”
O dilema do expert estabelecido, como superá-lo
A objeção mais comum a essa tese é legítima: “Construí minha reputação inteira sobre expertise. Devo jogar fora?” A resposta é um “talvez” dito como quem quer aprofundar o tema. Isso porque a expertise continua sendo o alicerce, a base de credibilidade e autoridade. O que muda é a proposta de valor. O conhecimento cria o contêiner. Mas o que o cliente está pagando é pela transformação identitária que acontece dentro dele.
Isso exige uma mudança real de posicionamento, de linguagem, de oferta e, muitas vezes, de autoconceito do próprio profissional. Não é só trocar a bio do Instagram. É repensar o que você entrega, como entrega e, principalmente, como se apresenta ao mercado.
O que isso significa para marcas e estratégias de conteúdo?
Para quem trabalha com estratégia de conteúdo e branding, o texto de Iva G. acende uma luz importante. A economia da identidade não é apenas um fenômeno do universo de coaches e mentores. É uma lente que se aplica a qualquer marca que venda transformação, aprendizado ou desenvolvimento.
Se a informação virou commodity, o diferencial está na capacidade de provocar mudanças reais na forma como o público se vê e se posiciona no mundo. Isso vale para uma empresa de tecnologia educacional, para uma consultoria de carreira, para um estúdio de conteúdo. O princípio é o mesmo: quem conseguir operar na camada da identidade, e não apenas na camada da informação, captura a atenção e a confiança que o mercado saturado de conteúdo tornou escassas.
O convite (e o risco)
Toda tese que ganha tração rápida carrega um risco embutido: virar buzzword antes de virar prática. “Economia da identidade” pode facilmente se tornar mais um rótulo vazio se não vier acompanhado de mudanças reais na forma como profissionais estruturam seus serviços, produzem conteúdo e se relacionam com seu público.
O convite que vale é o da honestidade: olhe para o que você oferece e pergunte se está realmente ajudando alguém a se transformar, ou apenas vendendo a ilusão de que mais informação resolve. Em 2026, a resposta a essa pergunta pode definir quem prospera e quem desaparece no ruído.